Os braseiros de Jirzankal: a prova química mais antiga do uso psicoativo da cannabis

Dez braseiros de madeira, pedras queimadas e um sinal químico inconfundível: a descoberta de 2019 nas montanhas do Pamir mudou o que sabemos sobre o uso antigo da cannabis.

A evidência química mais antiga e bem documentada de uso da cannabis por seus efeitos psicoativos vem de um cemitério nas montanhas do Pamir, no oeste da China. Em 2019, uma equipe internacional publicou na revista Science Advances a análise de braseiros de madeira de cerca de 2.500 anos encontrados no cemitério de Jirzankal. Dentro deles havia resíduos de cannabis com um perfil químico que indica teor de THC mais alto que o das plantas selvagens da região.

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Resposta rápida

Pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências e do Instituto Max Planck analisaram dez braseiros de madeira com pedras queimadas, datados de cerca de 500 a.C. Os resíduos continham marcadores de cannabis, incluindo CBN, produto da degradação do THC, em níveis que sugerem plantas com mais THC do que o comum.

  • Local: cemitério de Jirzankal, planalto do Pamir, Xinjiang, a cerca de 3.000 m de altitude.
  • Publicação: Ren et al., Science Advances, junho de 2019.
  • Método: cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas.
  • Contexto: rituais funerários, com sinais de música e oferendas.

O lugar: um cemitério no teto do mundo

O cemitério de Jirzankal fica no planalto do Pamir, no extremo oeste da China, perto das fronteiras com o Tajiquistão, o Afeganistão e o Paquistão. É uma região de montanhas altíssimas, a cerca de 3.000 metros de altitude, por onde passaram rotas que mais tarde fariam parte da Rota da Seda. As tumbas são marcadas na superfície por círculos e faixas de pedras pretas e brancas, um arranjo visual impressionante.

Escavações conduzidas por arqueólogos chineses encontraram, junto aos enterros, objetos como harpas angulares, instrumentos de música associados a rituais, e dez braseiros de madeira com pedras que mostravam marcas de exposição a altas temperaturas.

O método: química aplicada à arqueologia

A equipe liderada por Meng Ren e Yimin Yang, da Academia Chinesa de Ciências, com colaboração de Robert Spengler, do Instituto Max Planck de Ciência da História Humana, usou cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas. Essa técnica separa as moléculas presentes em uma amostra e as identifica pela massa, como uma impressão digital química.

Nos resíduos da madeira e das pedras, os cientistas encontraram biomarcadores de cannabis. O dado mais revelador foi a presença de canabinol (CBN) em níveis relativamente altos. O CBN é formado quando o THC se degrada com o tempo, a luz e o oxigênio. Muito CBN, portanto, indica que havia muito THC na origem. Entenda essa relação em CBG, CBN e outros canabinoides.

AspectoO que foi encontrado
Objetos10 braseiros de madeira com pedras queimadas
DataçãoCerca de 2.500 anos (por volta de 500 a.C.)
Marcadores químicosBiomarcadores de cannabis e CBN em nível alto
InterpretaçãoQueima de cannabis com teor de THC acima do típico de plantas selvagens
ContextoEnterros com objetos rituais, como harpas

Por que tanto THC?

As plantas selvagens de cannabis da região costumam ter pouco THC. Os pesquisadores propuseram duas explicações, não excludentes. A primeira é que plantas que crescem em grandes altitudes, sob radiação UV intensa e estresse ambiental, podem produzir mais canabinoides. A segunda é que as pessoas da época já selecionavam e cultivavam plantas mais potentes, buscando justamente seus efeitos.

Se a segunda hipótese estiver correta, Jirzankal mostra uma das etapas iniciais da seleção humana da cannabis por seus compostos psicoativos, um processo que, segundo estudos genômicos, começou a separar as linhagens de fibra e de resina por volta de 4 mil anos atrás. Veja as origens da cannabis.

Um ritual funerário

Os braseiros estavam associados a enterros e a objetos rituais, o que levou os autores a interpretar a queima de cannabis como parte de cerimônias fúnebres. A presença de harpas sugere música durante os rituais. Algumas tumbas apresentavam ainda indícios de práticas sacrificiais, comuns em sociedades antigas da região.

Esse quadro é muito semelhante ao descrito por Heródoto, cerca de 60 anos depois, sobre os citas das estepes, que jogavam cannabis sobre pedras quentes em tendas fechadas após funerais. Os povos do Pamir e os citas tinham contatos culturais, e é possível que compartilhassem práticas religiosas. Leia Heródoto e os citas.

A cannabis nas rotas da Ásia Central

Os autores destacam que as rotas de montanha do Pamir ligavam povos do leste e do oeste da Ásia muito antes da Rota da Seda clássica. Ideias, objetos, plantas e práticas religiosas circulavam por esses caminhos. A cannabis rica em resina pode ter se espalhado assim, junto com o conhecimento de seus efeitos e de seus usos rituais.

Achados próximos reforçam esse cenário. Nos túmulos de Yanghai e Jiayi, em Turpan, também em Xinjiang, foram encontradas plantas de cannabis enterradas com os mortos, com 2.400 a 2.800 anos. Veja a cannabis na China antiga.

Por que essa descoberta é importante

  • É uma evidência química direta, e não só uma interpretação de textos ou desenhos.
  • Mostra que plantas com mais THC eram usadas há pelo menos 2.500 anos.
  • Sugere seleção humana de variedades potentes já na Antiguidade.
  • Liga o uso da cannabis a rituais funerários e à música.
  • Ajuda a explicar como o uso psicoativo se espalhou pela Ásia Central.

Quem eram as pessoas enterradas em Jirzankal

As análises de isótopos e os objetos encontrados sugerem uma população com conexões amplas. Alguns indivíduos parecem não ter nascido no local, o que indica mobilidade e contato entre regiões distantes. As tumbas tinham arquitetura cuidadosa, com os círculos de pedras pretas e brancas visíveis na superfície, e os objetos depositados incluíam cerâmicas, peças de madeira e instrumentos musicais.

Em sociedades antigas da Ásia Central, os funerais eram momentos de grande importância social e religiosa, nos quais se reafirmavam laços de parentesco e se buscava garantir a passagem do morto para outro mundo. A fumaça aromática, presente em rituais de muitas culturas, como o incenso no Oriente Médio e a mirra no Egito, podia ter o papel de purificar, comunicar com os ancestrais ou marcar a separação entre vivos e mortos. A cannabis, com seus efeitos sobre a percepção, se encaixava bem nesse universo simbólico.

O que muda em relação ao que se pensava antes

Antes de 2019, as evidências do uso psicoativo antigo vinham principalmente de textos, como o de Heródoto, e de achados botânicos, como as sementes de Pazyryk e o cesto de Yanghai. Esses achados mostravam a presença da planta em contextos rituais, mas nem sempre permitiam afirmar que ela tinha teor elevado de THC. Jirzankal acrescentou uma prova química, mostrando que as plantas queimadas não eram simples cânhamo de fibra.

O estudo também ajudou a corrigir uma visão comum de que o hábito de inalar fumaça de cannabis teria surgido muito mais tarde, com a difusão dos cachimbos. Os braseiros mostram que, muito antes dos cachimbos, as pessoas já queimavam a planta em recipientes e inalavam a fumaça em ambientes fechados ou durante cerimônias.

Linha do tempo resumida

  • Cerca de 12 mil anos atrás: início da domesticação no Leste Asiático.
  • Cerca de 4 mil anos atrás: separação entre linhagens de fibra e de resina.
  • Cerca de 2.700 anos atrás: cannabis rica em THC no túmulo de Yanghai e no altar de Tel Arad.
  • Cerca de 2.500 anos atrás: braseiros de Jirzankal e túmulos de Pazyryk.
  • Cerca de 440 a.C.: relato de Heródoto sobre os citas.

Limites e cautelas

Como toda descoberta arqueológica, Jirzankal tem limites. Os resíduos não permitem calcular o teor exato de THC das plantas. Não se sabe se todas as pessoas da comunidade participavam dos rituais nem com que frequência eles ocorriam. Também não é possível afirmar que esse tenha sido o “primeiro” uso psicoativo da história: é o mais antigo comprovado quimicamente até agora, mas pode haver usos mais antigos ainda não encontrados ou que não deixaram vestígios.

Outro cuidado é evitar leituras anacrônicas. Os povos do Pamir não “usavam maconha” no sentido atual. A planta fazia parte de um universo religioso em que a fumaça, a música e o fogo tinham significados próprios, ligados à morte e ao contato com o sagrado.

A repercussão da descoberta

A publicação teve grande repercussão em revistas científicas e na imprensa internacional, porque oferecia um dado concreto em um campo cheio de especulação. Os próprios autores tiveram o cuidado de destacar que a descoberta não significa que o uso da cannabis fosse generalizado na Antiguidade, e sim que, em contextos específicos, pessoas já buscavam plantas com propriedades psicoativas e as usavam em rituais.

Para a história da ciência, o caso também é interessante porque mostra como novas tecnologias permitem reinterpretar coleções arqueológicas. Os braseiros haviam sido escavados alguns anos antes da análise química; foi o desenvolvimento de métodos mais sensíveis que permitiu extrair deles a informação que estava guardada nos poros da madeira e das pedras. Muitos museus guardam objetos que, analisados no futuro, podem revelar novos capítulos dessa história.

Como a ciência continua investigando

A química arqueológica avançou muito nas últimas décadas. Técnicas como a usada em Jirzankal permitem analisar resíduos em cerâmicas, pedras, cachimbos e tecidos com quantidades mínimas de material. Estudos semelhantes identificaram cannabis em um altar de cerca de 2.700 anos em Tel Arad, Israel, e em outros sítios da Eurásia. Cada nova análise ajuda a montar o mapa da difusão da planta e de seus usos.

Também a genética de plantas antigas, com DNA extraído de sementes e fibras preservadas, promete esclarecer quando surgiram as variedades ricas em THC e como elas se espalharam.

Texto de história e divulgação científica. Não descreve nem incentiva práticas de uso.

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Perguntas frequentes

Qual é a evidência mais antiga do uso da cannabis para efeitos psicoativos?

A evidência química mais antiga e bem documentada vem de braseiros de cerca de 2.500 anos do cemitério de Jirzankal, no Pamir, publicada em 2019.

Como os cientistas souberam que havia THC?

Eles encontraram canabinol (CBN), produto da degradação do THC, em níveis altos, por meio de cromatografia gasosa e espectrometria de massas.

Onde fica Jirzankal?

No planalto do Pamir, em Xinjiang, oeste da China, a cerca de 3.000 metros de altitude.

Para que a cannabis era usada em Jirzankal?

Em rituais funerários, aparentemente queimada em braseiros, em cerimônias que incluíam música.