A origem da cannabis é uma das histórias mais longas da relação entre seres humanos e plantas. Estudos genéticos publicados em 2021 indicam que a planta foi domesticada pela primeira vez no Leste Asiático, no território da atual China, há cerca de 12 mil anos, no início do período Neolítico. Antes de ser medicina, símbolo cultural ou alvo de proibição, a cannabis foi alimento, fibra e companhia constante das primeiras comunidades agrícolas.

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O neurocientista Sidarta Ribeiro abre o livro justamente com essa trajetória milenar, explicando como a planta acompanhou a evolução das sociedades humanas.
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A genética aponta o Leste Asiático como berço da domesticação, há cerca de 12 mil anos. O pólen fóssil sugere que a planta surgiu ainda antes, no planalto tibetano. Por milênios, ela foi usada principalmente como fibra e semente; a seleção para variedades ricas em canabinoides é bem mais recente.
- Família botânica: Cannabaceae, a mesma do lúpulo.
- Estudo de referência: 110 genomas analisados por Ren e colaboradores na Science Advances (2021).
- A separação entre linhagens de cânhamo e de uso psicoativo teria ocorrido há cerca de 4 mil anos.
- Os nomes científicos Cannabis sativa (Lineu, 1753) e Cannabis indica (Lamarck, 1785) refletem a visão europeia da planta.
Uma planta muito antiga
A cannabis pertence à família Cannabaceae, que inclui também o lúpulo (Humulus), usado na cerveja. Estudos de pólen fóssil liderados pelo pesquisador John McPartland sugerem que o gênero Cannabis se separou do lúpulo há cerca de 28 milhões de anos e que sua região de origem mais provável é o planalto tibetano, perto do lago Qinghai, no oeste da China. A partir dali, a planta teria se espalhado naturalmente pela Eurásia, muito antes da existência de agricultores.
Esse ponto é importante: a planta selvagem já existia em várias regiões quando os humanos começaram a cultivá-la. A domesticação, ou seja, o processo em que as pessoas passam a escolher e reproduzir as plantas com as características que mais lhes interessam, é um capítulo posterior e muito mais recente.
O que a genética revelou em 2021
Em julho de 2021, uma equipe internacional coordenada por Guangpeng Ren e Luca Fumagalli, da Universidade de Lausanne, publicou na revista Science Advances a maior análise genômica já feita da planta até então: 110 genomas completos de variedades selvagens, de cânhamo, de uso medicinal e de uso adulto, coletadas em diferentes partes do mundo.
Os resultados indicaram que as linhagens mais próximas da cannabis ancestral estão hoje no leste da Ásia, sobretudo na China, e que a domesticação teria começado há cerca de 12 mil anos. Segundo os autores, durante milhares de anos a planta foi cultivada como cultura de uso múltiplo: as sementes serviam de alimento, as fibras do caule viravam cordas e tecidos, e possivelmente partes da planta eram usadas em rituais ou como remédio.
O mesmo estudo sugere que, por volta de 4 mil anos atrás, começou uma separação entre dois grandes grupos: plantas selecionadas para fibra, altas e pouco ramificadas, e plantas selecionadas para resina, mais baixas, ramificadas e ricas em canabinoides. Essa divisão continua visível no genoma das variedades atuais de cânhamo e de cannabis medicinal.
| Período aproximado | O que aconteceu | Tipo de evidência |
|---|---|---|
| Cerca de 28 milhões de anos atrás | Cannabis se separa do lúpulo; provável origem no planalto tibetano | Pólen fóssil e genética |
| Cerca de 12 mil anos atrás | Início da domesticação no Leste Asiático | Genômica (Ren et al., 2021) |
| Cerca de 10 mil a 6 mil anos atrás | Uso de fibras e sementes em culturas neolíticas da Ásia | Cerâmicas com marcas de cordas, sementes em sítios arqueológicos |
| Cerca de 4 mil anos atrás | Separação entre linhagens de fibra e de resina | Genômica |
| Cerca de 2.500 anos atrás | Primeiras evidências químicas de queima ritual de cannabis rica em THC | Resíduos em braseiros (Jirzankal, China) |
Planta companheira dos primeiros acampamentos
Uma hipótese clássica, chamada às vezes de “hipótese do monte de lixo”, ajuda a imaginar como a domesticação começou. A cannabis cresce bem em solos ricos em nitrogênio, perturbados pela atividade humana, como as áreas próximas a acampamentos onde restos de comida e dejetos se acumulavam. Ao conviver com essas plantas, os grupos humanos teriam percebido que suas sementes eram nutritivas e que suas fibras eram fortes, passando a favorecê-las de forma cada vez mais intencional.
Os botânicos Robert Clarke e Mark Merlin, autores do livro Cannabis: Evolution and Ethnobotany (2013), descrevem a cannabis como uma “planta acompanhante” das sociedades humanas: ela se espalhou pelo mundo carregada pelas mesmas rotas de migração, comércio e conquista que levaram pessoas e ideias de um continente a outro.
Para continuar estudando a história da planta
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Os primeiros vestígios arqueológicos
A arqueologia confirma o uso antigo da planta, especialmente como fibra. No Japão, sítios do período Jōmon trazem sementes e possíveis fibras de cânhamo associadas a cerâmicas de milhares de anos. Na China, culturas neolíticas como a de Yangshao produziram cerâmicas com impressões que são interpretadas como marcas de cordas e tecidos de cânhamo. Esses vestígios não falam de efeito psicoativo, e sim de algo mais básico: vestir, amarrar, pescar e comer.
As evidências mais antigas e bem documentadas de uso da cannabis por seus efeitos psicoativos são bem mais recentes. A mais citada vem de braseiros de madeira encontrados no cemitério de Jirzankal, nas montanhas do Pamir, no oeste da China, datados de cerca de 2.500 anos atrás, com resíduos de cannabis rica em THC. Contamos essa descoberta em detalhe em os braseiros de Jirzankal.
Fibra, alimento e remédio: os três usos originais
- Fibra: o caule produz fibras longas e resistentes, ideais para cordas, redes, tecidos e, mais tarde, papel. Esse foi provavelmente o principal motivo do cultivo durante milênios.
- Alimento: as sementes são ricas em proteínas e gorduras insaturadas. Na China antiga, o cânhamo chegou a figurar entre os grãos tradicionais.
- Remédio e ritual: registros chineses e indianos mencionam usos medicinais e religiosos, que você conhece em a cannabis na China antiga e a cannabis na Índia.
Como a planta se espalhou pelo mundo
Depois de domesticada, a cannabis viajou. Rotas terrestres pela Ásia Central levaram a planta para o oeste, onde povos nômades como os citas a conheceram e a usaram em rituais descritos pelo historiador grego Heródoto. Pelo sul, ela chegou ao subcontinente indiano, onde ganhou um lugar central na religião e na medicina tradicional. Comerciantes árabes e persas a levaram ao Oriente Médio e à África. Mais tarde, navegadores europeus espalharam o cânhamo pelas Américas, e pessoas africanas escravizadas trouxeram para o Brasil o hábito de fumá-la.
Cada um desses caminhos produziu variedades adaptadas a climas e usos diferentes. As populações do sul da Ásia, por exemplo, foram selecionadas por resina; as do norte da Europa, por fibra. É por isso que, quando os naturalistas europeus começaram a classificar a planta, encontraram formas tão diferentes que acharam se tratar de espécies distintas.
Sativa, indica e ruderalis: nomes com história
O naturalista sueco Carl Lineu batizou a planta de Cannabis sativa em 1753, a partir do cânhamo cultivado na Europa. Em 1785, o francês Jean-Baptiste Lamarck descreveu a Cannabis indica, com base em amostras vindas da Índia, mais baixas e resinosas. Em 1924, o botânico russo Dmitrij Janischewsky descreveu a Cannabis ruderalis, uma forma selvagem e pequena das estepes. Hoje, muitos botânicos consideram que todas pertencem a uma única espécie muito variável, e os rótulos “indica” e “sativa” usados no comércio dizem pouco sobre a química real das plantas, como explicamos em terpenos da cannabis.
Por que essa história importa hoje
Conhecer a origem da cannabis ajuda a desfazer dois equívocos. O primeiro é tratá-la como uma “droga moderna”: a planta acompanha a humanidade desde o início da agricultura, com usos alimentares, têxteis, medicinais e espirituais. O segundo é imaginar que ela sempre foi usada principalmente pelo efeito psicoativo: por milhares de anos, a cannabis foi sobretudo fibra e comida.
A proibição, que hoje parece natural para muita gente, ocupa uma fração minúscula dessa trajetória, pouco mais de um século. Para entender como ela surgiu no Brasil, leia a história da maconha no Brasil; para o cenário internacional, veja a Conferência de Genebra de 1925.
Como os cientistas reconstroem essa história
Reconstruir o passado de uma planta exige combinar várias disciplinas. A paleobotânica estuda grãos de pólen preservados em sedimentos de lagos e turfeiras; como o pólen da cannabis é parecido com o do lúpulo, os pesquisadores usam métodos estatísticos e a ecologia de cada planta para separá-los. A arqueobotânica procura sementes carbonizadas, fibras e impressões em cerâmica em sítios arqueológicos. A química arqueológica identifica resíduos de canabinoides em objetos antigos. E a genômica compara o DNA de plantas atuais para estimar quando as linhagens se separaram.
Cada método tem limites. O pólen não diz se a planta era cultivada ou selvagem; sementes podem ter chegado ao sítio por acaso; datas genéticas dependem de modelos de taxa de mutação. É a convergência entre essas linhas de evidência que dá força à hipótese de uma domesticação antiga no Leste Asiático.
A cannabis e a revolução agrícola
A domesticação da cannabis coincide, em termos amplos, com o período em que comunidades humanas de várias partes do mundo passaram a cultivar plantas e criar animais, a chamada revolução neolítica. No Leste Asiático, esse processo envolveu o arroz e o painço; no Oriente Médio, trigo e cevada; nas Américas, milho, feijão e abóbora. A cannabis entrou nesse conjunto como uma cultura de múltiplos usos, valiosa justamente porque fornecia, ao mesmo tempo, fibra para vestir e amarrar e sementes para alimentar.
Esse caráter multifuncional ajuda a explicar por que ela se espalhou tão rápido e por que aparece em tantas culturas diferentes. Uma planta que cresce depressa, se adapta a vários climas e oferece vários produtos ao mesmo tempo era, para as comunidades antigas, um recurso estratégico.
O que ainda não sabemos
- A localização exata da primeira domesticação ainda é debatida; o estudo de 2021 aponta o Leste Asiático, mas novas amostras podem refinar o mapa.
- Não se sabe quando exatamente os humanos perceberam e passaram a buscar os efeitos psicoativos da planta.
- Há poucas populações verdadeiramente selvagens hoje: muitas plantas “selvagens” são, na verdade, descendentes de cultivos antigos que escaparam para a natureza.
Este é um texto de história e divulgação científica. Para informações sobre uso medicinal e leis atuais, consulte nossas seções de cannabis medicinal e leis.
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Perguntas frequentes
Qual é a origem da cannabis?
Estudos de pólen fóssil sugerem que o gênero surgiu no planalto tibetano há milhões de anos. A domesticação pelos humanos teria começado no Leste Asiático, na atual China, há cerca de 12 mil anos.
Há quanto tempo a cannabis é cultivada?
Segundo o estudo genômico de Ren e colaboradores (2021), há cerca de 12 mil anos, no início do Neolítico.
Para que a cannabis era usada no início?
Principalmente como fibra (cordas e tecidos) e alimento (sementes). Usos medicinais e rituais aparecem depois em registros históricos.
Cannabis sativa e indica são espécies diferentes?
Muitos botânicos hoje as consideram variações de uma única espécie, Cannabis sativa. Os nomes refletem classificações europeias dos séculos 18 e 20.
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Fontes e referências
- Ren G, et al. Large-scale whole-genome resequencing unravels the domestication history of Cannabis sativa. Science Advances, 2021.
- McPartland JM, Hegman W, Long T. Cannabis in Asia: its center of origin and early cultivation, based on a synthesis of subfossil pollen and archaeobotanical studies. Vegetation History and Archaeobotany, 2019.
- Clarke RC, Merlin MD. Cannabis: Evolution and Ethnobotany. University of California Press, 2013.
- Ren M, et al. The origins of cannabis smoking: chemical residue evidence from the first millennium BCE in the Pamirs. Science Advances, 2019.
- Gizmodo. Cannabis genomes suggest the plant originated in East Asia (2021).
- Ribeiro S. As flores do bem. Fósforo, 2023.







