Heródoto e os citas: o primeiro relato escrito sobre o uso da cannabis

Uma tenda de feltro, pedras em brasa e sementes de cânhamo: o relato de Heródoto sobre os citas é a descrição escrita mais famosa do uso antigo da cannabis, e a arqueologia confirmou.

O relato de Heródoto sobre os citas é a descrição escrita mais antiga e famosa do uso da cannabis por seus efeitos. Por volta de 440 a.C., o historiador grego contou que esse povo nômade das estepes entrava em pequenas tendas de feltro, jogava sementes de cânhamo sobre pedras em brasa e respirava a fumaça “uivando de prazer”. Durante séculos o trecho foi lido como curiosidade exótica, até que escavações na Sibéria, no século 20, encontraram exatamente o equipamento descrito.

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Resposta rápida

No livro IV das Histórias, Heródoto descreve um ritual cita de purificação após funerais em que sementes de cânhamo eram jogadas em pedras quentes dentro de tendas fechadas. Os túmulos de Pazyryk, nos montes Altai, escavados entre 1947 e 1949, revelaram braseiros, pedras, sementes de cânhamo e estruturas de tenda que confirmam o relato.

  • Autor: Heródoto de Halicarnasso, o “pai da história” (século 5 a.C.).
  • Povo: os citas, nômades iranianos das estepes ao norte do Mar Negro.
  • Achado arqueológico: kurgans (túmulos) de Pazyryk, na Sibéria.
  • O relato também menciona roupas de cânhamo dos trácios, parecidas com linho.

Quem foi Heródoto

Heródoto nasceu em Halicarnasso, na atual Turquia, por volta de 484 a.C. e é chamado desde a Antiguidade de “pai da história”, porque sua obra, as Histórias, é considerada o primeiro grande esforço de investigar e narrar acontecimentos do passado de forma sistemática. Ele viajou por boa parte do mundo conhecido pelos gregos e recolheu relatos sobre povos, costumes, geografia e guerras, sobretudo para explicar o conflito entre gregos e persas.

Heródoto mistura observação direta, relatos de terceiros e histórias que ele próprio dizia não acreditar. Por isso, durante muito tempo, parte de seus textos foi lida com desconfiança. O trecho sobre os citas é um exemplo de relato considerado exótico que acabou confirmado pela arqueologia.

Quem eram os citas

Os citas eram povos nômades de língua iraniana que dominaram as estepes da Eurásia, do norte do Mar Negro até a Ásia Central, entre os séculos 9 e 3 a.C., aproximadamente. Eram cavaleiros e arqueiros temidos, viviam em carroças e tendas, criavam cavalos e gado e enterravam seus líderes em grandes montes funerários chamados kurgans, muitas vezes com cavalos, armas e objetos de ouro de grande sofisticação artística.

O termo “cita” foi usado pelos gregos de forma ampla, para vários povos aparentados das estepes. Os grupos que habitavam as montanhas Altai, na Sibéria, por exemplo, pertencem a uma cultura relacionada, a chamada cultura de Pazyryk.

O que Heródoto escreveu

O trecho está no livro IV das Histórias, nos capítulos 73 a 75, dedicados aos costumes funerários dos citas. Depois de enterrar um morto, diz Heródoto, os citas se purificavam. Eles montavam uma estrutura com três varas inclinadas umas contra as outras, cobriam com mantas de feltro bem fechadas e colocavam no centro um recipiente com pedras aquecidas até ficarem em brasa.

Em seguida, pegavam sementes de cânhamo, entravam sob as mantas e jogavam as sementes sobre as pedras. A fumaça, segundo o historiador, era tão intensa que nenhum banho de vapor grego se comparava. Os citas, encantados com o vapor, “uivavam de prazer”. Heródoto acrescenta que esse era o banho deles, já que não lavavam o corpo com água.

No mesmo trecho, ele descreve a planta: o cânhamo cresceria na Cítia tanto de forma selvagem quanto cultivada e se pareceria com o linho, mas seria mais grosso e mais alto. Os trácios, vizinhos dos citas, faziam roupas de cânhamo tão parecidas com as de linho que só um especialista perceberia a diferença.

Uma observação sobre as “sementes”

Botanicamente, as sementes de cannabis têm pouquíssimo THC. Historiadores e botânicos sugerem que, na prática, os citas jogavam nas pedras as inflorescências com sementes, ou seja, as flores secas, ricas em resina. A palavra usada por Heródoto pode refletir o modo como o material foi descrito a ele, e não uma separação botânica precisa.

A arqueologia confirma: os kurgans de Pazyryk

Entre 1947 e 1949, o arqueólogo soviético Sergei Rudenko escavou túmulos no vale de Pazyryk, nas montanhas Altai, no sul da Sibéria. O solo permanentemente congelado (permafrost) preservou de forma extraordinária materiais orgânicos de cerca de 2.400 a 2.500 anos: tecidos, tapetes, couro, madeira, corpos tatuados e cavalos com seus arreios.

Em alguns túmulos, Rudenko encontrou exatamente o que Heródoto havia descrito: estruturas de varas que sustentavam pequenas tendas, recipientes de metal com pedras dentro e sementes de cânhamo carbonizadas. Havia também pequenos sacos de couro com sementes. A coincidência com o texto grego é tão precisa que o achado se tornou um caso clássico de como a arqueologia pode confirmar fontes escritas antigas.

ElementoNo relato de HeródotoEm Pazyryk
EstruturaTrês varas cobertas com feltroVaras de tenda encontradas nos túmulos
Fonte de calorPedras aquecidas em um recipienteBraseiros de metal com pedras
PlantaSementes de cânhamo jogadas nas pedrasSementes de cânhamo carbonizadas
ContextoPurificação depois de funeraisObjetos dentro de túmulos de elite

Outras evidências nas estepes

Achados posteriores reforçam o quadro. Em 2015, arqueólogos russos relataram a descoberta, em um kurgan cita no Cáucaso, de vasos de ouro com resíduos que foram interpretados como de cannabis e ópio, sugerindo uso ritual de bebidas ou fumaças. E, mais a leste, nas montanhas do Pamir, braseiros de madeira de cerca de 2.500 anos analisados em 2019 mostraram resíduos químicos de cannabis rica em THC, como contamos em os braseiros de Jirzankal.

O conjunto indica que, entre os povos das estepes e montanhas da Ásia Central, queimar cannabis em contextos funerários e religiosos era uma prática difundida há pelo menos 2.500 anos. A planta circulava pelas mesmas rotas que mais tarde formariam a Rota da Seda.

Por que esse relato é tão importante

  • É a descrição escrita mais antiga e detalhada de inalação da fumaça de cannabis por seus efeitos.
  • Mostra que o uso estava ligado a ritual, morte e purificação, e não a lazer cotidiano.
  • Registra ao mesmo tempo o uso têxtil (roupas trácias) e o uso psicoativo da mesma planta.
  • É um exemplo raro de fonte literária antiga confirmada por escavações.

Leituras exageradas e mitos

O trecho de Heródoto às vezes é usado para afirmar que “toda a Antiguidade fumava maconha” ou que os citas viviam sob efeito da planta. As fontes não sustentam isso. O texto descreve um ritual específico, ligado aos funerais, e não um hábito diário. Também não se sabe a intensidade dos efeitos, que dependiam da variedade da planta e da quantidade usada.

Outro cuidado é com a palavra “fumar”. Os citas não enrolavam nem usavam cachimbos: eles criavam uma espécie de sauna de fumaça, em espaço fechado. A forma de uso por cachimbos só se difundiria na Eurásia e na África muitos séculos depois.

A cannabis no mundo grego e romano

Os próprios gregos e romanos conheciam a planta principalmente como fonte de fibra. O cânhamo era usado em cordas e velas, e autores como Plínio, o Velho, e o médico Dioscórides mencionam usos medicinais de partes da planta, como o suco das sementes para dor de ouvido. Não há indícios de que o uso psicoativo fosse comum entre gregos e romanos; para eles, o costume cita era justamente algo estrangeiro e digno de nota.

Essa relação de longo prazo entre o Mediterrâneo e o cânhamo como fibra atravessaria a Idade Média e chegaria às grandes navegações, tema de o cânhamo nas grandes navegações.

A vida nas estepes e o lugar do ritual

Para entender o ritual descrito por Heródoto, é útil imaginar o modo de vida das estepes. Os povos nômades se deslocavam com seus rebanhos conforme as estações, carregando casas desmontáveis feitas de madeira e feltro. O feltro, produzido a partir de lã prensada, era o material básico de abrigo, roupas, tapetes e selas. Não por acaso, a tenda de purificação era coberta de feltro: era o material disponível e o mais eficiente para reter calor e fumaça.

A morte de um líder mobilizava toda a comunidade. Heródoto descreve longos cortejos fúnebres, sacrifícios de animais e a construção de grandes montes de terra sobre as sepulturas. A purificação com fumaça de cânhamo encerrava esse ciclo, marcando o retorno dos vivos à vida comum. Antropólogos observam práticas semelhantes de purificação por fumaça ou vapor em muitas culturas, do Oriente Médio às Américas, ainda que com plantas diferentes.

Tatuagens, ouro e arte

Os túmulos de Pazyryk também ficaram famosos por outros achados: corpos de homens e mulheres com tatuagens elaboradas de animais, o tapete de lã com nós mais antigo conhecido e peças de ouro com motivos animais, o chamado “estilo animal” das estepes. A presença do kit de cânhamo entre esses objetos de prestígio sugere que a planta tinha valor para as elites, sendo enterrada junto com bens considerados importantes para a vida após a morte.

Parte desse acervo está hoje no Museu Hermitage, em São Petersburgo, e continua sendo estudada com novas técnicas, como análises químicas de resíduos, que podem revelar mais detalhes sobre as plantas usadas.

O que ainda não sabemos

  • Que tipo de cannabis os citas usavam e qual era seu teor de THC.
  • Se o ritual era restrito a elites ou comum a toda a população.
  • Como a prática se relacionava com outras substâncias usadas nas estepes, como o ópio.

Texto de história e divulgação. Não descreve nem incentiva práticas de uso. Para informação de saúde, veja redução de danos.

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Perguntas frequentes

Qual é o relato mais antigo sobre o uso da cannabis?

Entre os relatos escritos, o mais famoso e detalhado é o de Heródoto, no livro IV das Histórias (cerca de 440 a.C.), sobre os citas queimando sementes de cânhamo em tendas.

Os citas fumavam maconha?

Eles jogavam a planta sobre pedras quentes dentro de tendas fechadas e inalavam a fumaça em rituais de purificação após funerais. Não se trata de fumar como hoje.

O relato de Heródoto foi confirmado?

Sim. Os túmulos de Pazyryk, escavados por Sergei Rudenko entre 1947 e 1949, revelaram varas de tenda, braseiros com pedras e sementes de cânhamo carbonizadas.

Os gregos usavam cannabis?

Gregos e romanos usavam o cânhamo principalmente como fibra e, em menor grau, como remédio. O uso psicoativo era visto como costume estrangeiro.

Fontes e referências

  1. Heródoto. Histórias, livro IV (Melpômene), capítulos 73 a 75.
  2. Rudenko SI. Frozen Tombs of Siberia: The Pazyryk Burials of Iron Age Horsemen. University of California Press, 1970.
  3. Ren M, et al. The origins of cannabis smoking: chemical residue evidence from the first millennium BCE in the Pamirs. Science Advances, 2019.
  4. Clarke RC, Merlin MD. Cannabis: Evolution and Ethnobotany. University of California Press, 2013.
  5. Butrica JL. The medical use of cannabis among the Greeks and Romans. Journal of Cannabis Therapeutics, 2002.

Conteúdo revisado pela equipe editorial do ClickGanja com base nas fontes acima. Última revisão: outubro de 2026. Este texto é informativo e não substitui orientação médica, jurídica ou profissional. Veja nossa política editorial.