Cannabis na China antiga: fibra, alimento, medicina e os túmulos de Turpan

Do caractere 麻 às roupas de luto, do papel de Cai Lun aos túmulos de Turpan: a cannabis esteve no centro da civilização chinesa por milênios.

A cannabis na China antiga foi muito mais do que uma planta medicinal. Durante milênios ela vestiu, alimentou e amarrou a vida cotidiana de camponeses e imperadores, deu origem a um dos primeiros papéis do mundo e aparece em um dos textos médicos mais antigos da tradição chinesa. A arqueologia ainda revelou, no deserto de Turpan, túmulos de mais de 2.500 anos com cannabis rica em THC enterrada ao lado dos mortos.

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Para quem quer entender a planta em seus múltiplos papéis históricos, este guia organizado por Julie Holland dedica capítulos à história e à cultura da cannabis.

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Resposta rápida

Na China, a cannabis (麻, má) foi sobretudo fibra e grão por milhares de anos. Textos médicos tradicionais a descrevem como remédio e alertam para efeitos em doses altas. Achados arqueológicos em Xinjiang mostram uso ritual de plantas ricas em THC há cerca de 2.500 anos.

  • O caractere 麻 representa plantas penduradas sob um abrigo, provavelmente secando.
  • O cânhamo foi usado em roupas comuns e em vestes de luto por séculos.
  • O Shennong Bencao Jing, compilado por volta da dinastia Han, cita a planta e seus efeitos.
  • Os túmulos de Yanghai e Jiayi, em Turpan, guardaram cannabis com 2.500 a 2.800 anos.

Uma planta no coração da agricultura chinesa

A China é, segundo os estudos genéticos mais recentes, a região onde a cannabis foi domesticada pela primeira vez, há cerca de 12 mil anos. Não surpreende que a planta apareça em camadas profundas da cultura chinesa. Por muito tempo, o cânhamo ocupou um lugar de destaque entre as culturas agrícolas: suas fibras eram transformadas em tecidos e cordas, e suas sementes integravam a alimentação, ao lado de outros grãos. Algumas listas clássicas dos “cinco grãos” chineses incluem o cânhamo.

Para entender o ponto de partida dessa história, leia as origens da cannabis.

O caractere 麻 e o que ele revela

O caractere chinês para a planta, 麻 (má), é formado por um elemento que representa um abrigo ou telhado e, embaixo dele, duas plantas. A interpretação mais aceita é que ele mostra caules de cânhamo pendurados para secar sob uma cobertura, uma etapa essencial no preparo das fibras. O próprio sistema de escrita, portanto, guarda a memória do uso têxtil da planta.

O mesmo caractere aparece hoje em palavras ligadas a dormência e anestesia, como 麻醉 (mázuì, anestesia), uma pista linguística de que os efeitos da planta sobre o corpo também eram conhecidos.

Roupas, luto e vida cotidiana

Antes da difusão do algodão, que só se tornou comum na China muitos séculos depois, o cânhamo era um dos principais tecidos usados pelas pessoas comuns. A seda era cara e reservada às elites; o cânhamo vestia camponeses, soldados e trabalhadores. Textos rituais da antiguidade chinesa prescrevem roupas grosseiras de cânhamo como vestes de luto, uma tradição que atravessou séculos.

O cânhamo também era usado em cordas para arcos, redes de pesca, calçados e utensílios. Era, em resumo, um material de infraestrutura, tão presente na vida diária quanto a madeira ou o bambu.

O papel de cânhamo

A invenção do papel é tradicionalmente atribuída a Cai Lun, oficial da corte da dinastia Han, que em 105 d.C. apresentou ao imperador um método de fabricação usando cascas de árvore, restos de tecido, redes de pesca velhas e fibras de cânhamo. Arqueólogos já encontraram fragmentos de papel feitos com fibras de cânhamo ainda mais antigos, o que sugere que Cai Lun aperfeiçoou e padronizou uma técnica já existente.

O papel de cânhamo era resistente e durável, e a técnica chinesa se espalhou, séculos depois, para o mundo islâmico e daí para a Europa. Por isso a planta está ligada, de forma indireta, à história da escrita, dos livros e da administração em grande parte do mundo.

Medicina tradicional: o Shennong Bencao Jing

A tradição chinesa atribui ao lendário imperador Shennong, o “Lavrador Divino”, a descoberta das propriedades de centenas de plantas. O livro que leva seu nome, o Shennong Bencao Jing (Clássico de Matéria Médica de Shennong), foi compilado por volta da dinastia Han, nos primeiros séculos da era comum, reunindo conhecimentos mais antigos.

O texto menciona a cannabis em diferentes partes. As sementes aparecem como alimento e remédio. Sobre as inflorescências, há uma passagem frequentemente citada por historiadores: tomadas em excesso, fariam a pessoa “ver demônios”, e o uso prolongado permitiria “comunicar-se com os espíritos” e deixaria o corpo leve. É uma das descrições mais antigas dos efeitos psicoativos da planta em um texto médico, e mostra que os autores conheciam tanto o uso quanto seus riscos.

Hua Tuo e o mafeisan

Outro nome associado à cannabis na medicina chinesa é Hua Tuo, cirurgião que viveu no fim da dinastia Han (século 2 d.C.). Relatos históricos dizem que ele usava um anestésico chamado mafeisan, misturado ao vinho, para realizar cirurgias. Como o nome contém o caractere 麻, muitos autores sugeriram que a cannabis fazia parte da fórmula. Outros historiadores discordam e apontam plantas como a datura. A composição exata se perdeu, e o tema segue em aberto.

Os túmulos de Turpan: arqueologia com THC

As evidências mais impressionantes vêm do oeste da China, na região autônoma de Xinjiang, onde o clima desértico preservou materiais orgânicos por milênios.

Yanghai: o túmulo do xamã

No cemitério de Yanghai, perto de Turpan, arqueólogos encontraram o túmulo de um homem de cerca de 45 anos, enterrado há cerca de 2.700 anos com objetos que sugerem uma posição ritual, como uma harpa e equipamentos de equitação. Ao lado dele havia um cesto com cerca de 789 gramas de material vegetal. Análises publicadas em 2008 no Journal of Experimental Botany, por uma equipe que incluiu o neurologista Ethan Russo, identificaram o material como cannabis, com indícios de alto teor de THC e com as partes menos psicoativas separadas, o que sugere uso intencional pelos efeitos da planta.

Jiayi: a mortalha de cannabis

Em outro cemitério da mesma região, Jiayi, pesquisadores descreveram em 2016, na revista Economic Botany, um enterro de cerca de 2.400 a 2.800 anos em que treze plantas inteiras de cannabis foram dispostas diagonalmente sobre o corpo de um homem, como uma mortalha. As plantas tinham inflorescências e foram colhidas ainda verdes, o que indica que a cannabis tinha valor simbólico ou ritual para aquela comunidade.

Esses povos do oeste da China tinham contato com culturas nômades da Ásia Central, as mesmas que, mais a oeste, foram descritas pelo grego Heródoto queimando sementes de cannabis em rituais. Contamos essa história em Heródoto e os citas e em os braseiros de Jirzankal.

Achado ou fonteData aproximadaO que revela
Cerâmicas e fibras neolíticasMilhares de anos a.C.Uso têxtil antigo
Túmulo de YanghaiCerca de 2.700 anos atrásCannabis rica em THC em contexto ritual
Cemitério de JiayiCerca de 2.400 a 2.800 anos atrásPlantas inteiras usadas como mortalha
Papel de Cai Lun105 d.C.Fibras de cânhamo na produção de papel
Shennong Bencao JingDinastia Han (compilação)Usos medicinais e efeitos psicoativos descritos

Por que o uso psicoativo não se tornou dominante na China

Apesar desses registros, o uso psicoativo da cannabis não parece ter se tornado um hábito social difundido na China histórica, ao contrário do que aconteceu na Índia. Historiadores sugerem algumas razões: o valor econômico do cânhamo como fibra, a seleção de variedades com pouca resina no leste do país e a valorização de outras substâncias, como o álcool e, muito mais tarde, o chá e o ópio, este último com consequências históricas graves no século 19.

A China contemporânea mantém leis rígidas contra o uso de cannabis, mas é um dos maiores produtores de cânhamo industrial do mundo, inclusive para fibras e CBD destinado à exportação. Veja o panorama em usos do cânhamo industrial.

O cânhamo na agricultura e na economia imperial

Manuais agrícolas chineses descreviam técnicas específicas para o cultivo do cânhamo, como a época de semeadura, a densidade de plantio e o momento da colheita para obter fibras longas e macias. Os agricultores já sabiam que plantas cultivadas muito próximas umas das outras crescem altas e pouco ramificadas, o que produz fibras melhores, enquanto plantas espaçadas ramificam e produzem mais sementes. Esse conhecimento prático é, na essência, uma forma de manejo que os cultivadores ainda usam hoje.

Também havia separação entre plantas macho e fêmea. Os chineses perceberam que as plantas masculinas forneciam fibras mais finas, enquanto as femininas produziam sementes. Termos diferentes eram usados para cada uma, sinal de uma observação botânica cuidadosa muito antes da ciência moderna descrever o sexo das plantas.

Em diversos períodos, tecidos e fios de cânhamo também circularam como forma de pagamento de tributos ao Estado, ao lado de grãos e seda. Isso mostra o peso econômico da planta: ela não era um produto marginal, mas parte da base material do império.

Cordas, arcos e guerra

Fibras resistentes tinham valor militar. Cordas de cânhamo eram usadas em arcos, catapultas, embarcações e no transporte de cargas pesadas. Em uma sociedade em que boa parte da tecnologia dependia de tração e amarração, uma fibra forte, abundante e barata era um recurso estratégico. Séculos depois, o mesmo raciocínio levaria potências navais europeias a incentivar o plantio de cânhamo, como contamos em o cânhamo nas grandes navegações.

Tibete, taoísmo e espiritualidade

Além da medicina, alguns textos associados ao taoísmo mencionam a cannabis em práticas ligadas à busca de longevidade e de estados alterados de consciência, muitas vezes misturada a outras plantas e incensos. Os registros são fragmentados e difíceis de interpretar, e historiadores alertam contra leituras exageradas. Ainda assim, a combinação desses textos com os achados de Xinjiang indica que, ao menos em alguns grupos e períodos, a planta tinha um papel espiritual.

No Tibete e no Himalaia, regiões próximas ao provável centro de origem da planta, a cannabis também aparece em tradições religiosas e medicinais, numa ponte cultural com a Índia, onde ela se tornaria central em práticas devocionais. Veja a cannabis na Índia: bhang e Shiva.

O que essa história ensina

  • A cannabis foi, por milênios, uma planta de uso cotidiano, ligada à alimentação e ao vestuário.
  • Os efeitos psicoativos eram conhecidos e descritos com cautela já em textos médicos antigos.
  • O uso ritual existia em algumas culturas, especialmente no oeste da China, em contato com povos da Ásia Central.
  • A planta participou de inovações tecnológicas, como o papel, que mudaram a história do mundo.

Texto de história e divulgação. Informações sobre uso medicinal atual devem ser buscadas com profissionais de saúde. Veja cannabis medicinal no Brasil.

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Perguntas frequentes

Os chineses antigos usavam cannabis?

Sim. A cannabis foi usada por milênios na China como fibra, alimento e remédio, e há evidências arqueológicas de uso ritual em Xinjiang há cerca de 2.500 anos.

O que significa o caractere 麻?

É o caractere para cânhamo (má). Representa plantas sob um abrigo, provavelmente secando, e também aparece em palavras ligadas a anestesia.

O papel foi inventado com cânhamo?

O método atribuído a Cai Lun, em 105 d.C., usava cascas de árvore, trapos, redes de pesca e fibras de cânhamo. Há fragmentos de papel de cânhamo ainda mais antigos.

O que foi encontrado nos túmulos de Turpan?

Em Yanghai, um cesto com cerca de 789 g de cannabis rica em THC; em Jiayi, treze plantas usadas como mortalha. Ambos têm entre 2.400 e 2.800 anos.

Fontes e referências

  1. Russo EB, et al. Phytochemical and genetic analyses of ancient cannabis from Central Asia. Journal of Experimental Botany, 2008.
  2. Jiang H, et al. Ancient cannabis burial shroud in a Central Eurasian cemetery. Economic Botany, 2016.
  3. Ren G, et al. Large-scale whole-genome resequencing unravels the domestication history of Cannabis sativa. Science Advances, 2021.
  4. Li HL. An archaeological and historical account of cannabis in China. Economic Botany, 1974.
  5. Touw M. The religious and medicinal uses of cannabis in China, India and Tibet. Journal of Psychoactive Drugs, 1981.
  6. Clarke RC, Merlin MD. Cannabis: Evolution and Ethnobotany. University of California Press, 2013.

Conteúdo revisado pela equipe editorial do ClickGanja com base nas fontes acima. Última revisão: outubro de 2026. Este texto é informativo e não substitui orientação médica, jurídica ou profissional. Veja nossa política editorial.