A palavra haxixe vem do árabe hashish, que originalmente significava “erva” ou “capim seco”. Entre os séculos XII e XV, ela passou a designar um produto específico, feito das folhas e flores da cannabis, consumido em várias cidades do mundo islâmico, do Irã ao Egito. A história do haxixe medieval envolve místicos sufis, lendas de origem, poemas, médicos, juristas que debatiam se ele era proibido e governantes que tentaram erradicá-lo. Também envolve um dos mitos mais duradouros sobre a planta: o dos “assassinos” drogados.

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O haxixe se difundiu no mundo islâmico medieval principalmente a partir do século XII, associado a grupos sufis, e se tornou objeto de intensos debates religiosos e de tentativas de proibição, sobretudo no Egito e na Síria dos mamelucos.
- Termo: hashish, “erva” em árabe.
- Difusão: séculos XII e XIII, do Khorasan (Irã) ao Egito e à Síria.
- Lenda de origem: o xeique sufi Haydar, que teria descoberto a planta.
- Debate jurídico: estudiosos como Ibn Taymiyya defenderam a proibição.
- Mito: a ligação entre os “assassinos” nizaris e o haxixe não tem base histórica sólida.
A cannabis antes do haxixe
A cannabis já era conhecida no Oriente Médio e na Pérsia muito antes do islã, tanto como fonte de fibra quanto como medicamento. Textos persas e evidências arqueológicas indicam contato com a planta desde a Antiguidade, como mostra o altar de Tel Arad. Médicos de língua árabe herdaram parte desse conhecimento de fontes gregas, como Dioscórides e Galeno, que descreviam o uso das sementes e do suco da planta para dores de ouvido e outros males. O que mudou na Idade Média foi a difusão do consumo por seus efeitos psicoativos em ambientes urbanos.
O que era o haxixe medieval
O haxixe medieval nem sempre correspondia ao que chamamos hoje de haxixe, a resina prensada. As fontes descrevem várias preparações: folhas secas e trituradas, misturadas com açúcar ou mel; pastas com especiarias; e bolinhos ou confeitos. Em geral, o produto era ingerido, e não fumado. O hábito de fumar só se espalharia depois da chegada do tabaco das Américas ao Velho Mundo, a partir do século XVI.
A ingestão produz efeitos mais lentos e prolongados que a inalação, como explicamos em como funcionam os comestíveis de cannabis. Isso aparece nas fontes medievais, que descrevem estados de euforia, riso, fome intensa, sonolência e, às vezes, confusão e ansiedade.
Nomes do haxixe
- Hashish: “erva”, o termo mais comum.
- Hashishat al-fuqara: “erva dos pobres” ou “erva dos faquires”, em referência aos dervixes sufis.
- Ghubayra e outros apelidos poéticos e populares.
- Banj: termo que aparece em algumas fontes e, conforme o contexto, podia designar a cannabis ou outras plantas, como o meimendro.
A lenda do xeique Haydar
Várias fontes medievais contam uma lenda de origem do haxixe ligada a um mestre sufi chamado Haydar, que teria vivido no Khorasan, no nordeste do Irã, no século XII. Segundo a história, Haydar, conhecido por sua vida austera e isolada, saiu certo dia para caminhar no campo e voltou com o semblante alegre e falante, algo incomum. Questionado pelos discípulos, contou que havia comido as folhas de uma planta que parecia “dançar” sob o calor do sol. Ele teria pedido segredo, mas o hábito se espalhou entre os discípulos e, depois, para além deles.
Historiadores tratam essa narrativa como lenda, e não como relato fiel. Ela é útil, porém, porque mostra como os próprios autores medievais associavam a difusão do haxixe a grupos sufis do mundo persa. O historiador egípcio al-Maqrizi (1364–1442), em sua obra sobre a topografia do Cairo, reproduz versões da lenda e relata o consumo e a repressão do haxixe na cidade.
Sufis, poetas e cidades
O sufismo é a dimensão mística do islã, que busca a experiência direta do divino por meio de práticas como a recitação, a música, a dança e a meditação. Alguns grupos de dervixes, especialmente os chamados qalandariyya, rejeitavam convenções sociais e eram associados, pelas fontes da época, ao uso do haxixe como forma de alcançar estados de êxtase. Muitos outros sufis e autoridades religiosas, no entanto, condenavam esse consumo.
No século XIII, o haxixe aparece em cidades como Bagdá, Damasco e Cairo, onde havia lugares conhecidos de venda e consumo. No Cairo, uma área chamada de jardim de Kafur, perto do bairro de al-Luq, ficou famosa pelo cultivo e pelo comércio da planta. Poetas escreveram versos elogiando ou satirizando o haxixe, criando um pequeno gênero literário que debatia suas virtudes e seus males, às vezes em comparação com o vinho.
Haxixe x vinho
Um dos temas centrais dos debates medievais era a relação entre o haxixe e o vinho. O Alcorão e a tradição islâmica proíbem o consumo de vinho e de bebidas que intoxicam. Como o haxixe não é mencionado explicitamente nos textos sagrados, que antecedem sua difusão, os juristas precisaram decidir se ele deveria ser equiparado às bebidas proibidas. Defensores argumentavam que a erva não era citada e que não provocava a mesma agressividade do álcool. Críticos respondiam que ela também alterava a mente e, portanto, estava sujeita à mesma regra.
Os juristas e a proibição
A partir do século XIII, diversos estudiosos escreveram tratados sobre o haxixe. O mais influente foi Ibn Taymiyya (1263–1328), jurista hanbalita de Damasco, que defendeu que o haxixe era intoxicante e, por isso, proibido como o vinho, e que seu consumo deveria ser punido. Para ele, a erva corrompia a mente, a moral e a religiosidade, e sua difusão entre o povo era um sinal de decadência.
Outro texto importante é o tratado de al-Zarkashi (1344–1392), estudioso egípcio que compilou opiniões jurídicas, médicas e literárias sobre a erva em uma obra conhecida como Zahr al-Arish fi Tahrim al-Hashish (“A flor da parreira sobre a proibição do haxixe”). Esses textos chegaram até nós e são fontes centrais para os historiadores.
| Autor | Período | Posição |
|---|---|---|
| Ibn al-Baytar (botânico) | Século XIII | Descreveu a planta e seus efeitos |
| Ibn Taymiyya (jurista) | 1263–1328 | Defendeu a proibição e a punição |
| Al-Zarkashi (jurista) | 1344–1392 | Compilou opiniões e defendeu a proibição |
| Al-Maqrizi (historiador) | 1364–1442 | Relatou o consumo e a repressão no Cairo |
Tentativas de erradicação no Egito mameluco
Os mamelucos governaram o Egito e a Síria entre 1250 e 1517. Durante esse período, as autoridades fizeram várias tentativas de acabar com o consumo de haxixe. As fontes relatam campanhas de destruição de plantações, punições públicas e proibições de venda. Uma das mais citadas ocorreu em 1378, quando o emir Sudun al-Shaykhuni mandou destruir as plantações de cannabis do Cairo e punir os consumidores.
Segundo os próprios cronistas, essas campanhas tiveram efeito limitado. O consumo voltava pouco tempo depois, e a erva continuava disponível. Al-Maqrizi observou que, em sua época, o haxixe era consumido abertamente por diferentes camadas da população. A história lembra outras ondas de proibição que vieram séculos depois, com resultados igualmente discutíveis. Conheça os efeitos das políticas de drogas modernas em Lei de Drogas: artigos 28 e 33.
O mito dos “assassinos”
A palavra “assassino”, em várias línguas europeias, vem de hashishiyyin, termo pejorativo usado por inimigos para designar os nizaris, um ramo do islamismo ismaelita que, entre os séculos XI e XIII, controlava fortalezas no Irã e na Síria, como a de Alamut. Os nizaris ficaram conhecidos por eliminar adversários políticos em ataques planejados.
No fim do século XIII, o relato atribuído a Marco Polo descreveu um “Velho da Montanha” que drogaria jovens e os levaria a um jardim paradisíaco para convencê-los a morrer em missões. No século XIX, o orientalista francês Silvestre de Sacy popularizou a ideia de que os assassinos eram chamados assim porque usavam haxixe antes dos ataques. Essa versão se espalhou e foi usada, inclusive, na propaganda proibicionista do século XX.
Historiadores especializados, como Farhad Daftary, mostraram que não há evidências de que os nizaris usassem haxixe em suas ações. O termo hashishiyyin era, provavelmente, um insulto que associava o grupo à “gente da erva”, ou seja, a pessoas de má reputação e baixa condição social. O mito, portanto, diz mais sobre os preconceitos de quem o criou do que sobre os nizaris.
O mito dos “assassinos drogados” foi reaproveitado por campanhas antidrogas no século XX para associar a cannabis à violência, uma relação que a ciência não confirma.
O haxixe na medicina medieval
Médicos e botânicos de língua árabe também escreveram sobre a cannabis. O botânico andaluz Ibn al-Baytar (cerca de 1197–1248), que trabalhou no Cairo e em Damasco, descreveu a planta e mencionou seu uso entre grupos sufis no Egito. Outras obras médicas citam o uso das sementes, do óleo e do suco das folhas para dores, inflamações e problemas digestivos, sempre com alertas sobre os efeitos sobre a mente. Esse tema será aprofundado em um artigo sobre a cannabis na medicina árabe medieval.
Do mundo islâmico à Europa
A palavra e a ideia do haxixe chegaram à Europa principalmente a partir do século XIX. Os soldados e cientistas que acompanharam Napoleão na campanha do Egito (1798–1801) observaram o consumo de haxixe no Cairo, e o governo francês chegou a proibi-lo entre as tropas. A curiosidade dos franceses ajudou a criar, décadas depois, o famoso Club des Hashischins, em Paris, que reunia escritores e artistas. Na mesma época, médicos britânicos na Índia, como William O’Shaughnessy, estudavam a planta para fins medicinais.
Lições dessa história
- O consumo é antigo e culturalmente enraizado: o haxixe fez parte da vida urbana de grandes cidades medievais.
- A proibição não é nova: desde a Idade Média, autoridades tentaram eliminar a planta, com sucesso limitado.
- Os mitos têm consequências: o mito dos assassinos, criado sem base histórica, influenciou a percepção da cannabis por séculos.
- A ciência e a religião debatem a planta há muito tempo: os juristas medievais já discutiam efeitos, riscos e moralidade.
Ver a história completa ajuda a entender que as discussões atuais sobre regulação, saúde pública e redução de danos fazem parte de um debate muito mais antigo.
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Perguntas frequentes
O que significa a palavra haxixe?
Vem do árabe hashish, que significava “erva” ou “capim seco”, e passou a designar preparações de cannabis.
Quando o haxixe se espalhou pelo mundo islâmico?
Principalmente a partir do século XII, do Khorasan, no Irã, para o Iraque, a Síria e o Egito.
O haxixe medieval era fumado?
Em geral, não. Era ingerido em pastas, doces ou folhas trituradas. O hábito de fumar se difundiu depois do século XVI.
Os “assassinos” usavam haxixe?
Não há evidências históricas sólidas. O termo hashishiyyin era um insulto usado pelos inimigos dos nizaris.
O islã proíbe o haxixe?
A maioria dos juristas medievais, como Ibn Taymiyya, equiparou o haxixe aos intoxicantes proibidos, mas houve debate.
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Fontes e referências
- Rosenthal F. The Herb: Hashish versus Medieval Muslim Society. Leiden: Brill, 1971.
- Daftary F. The Assassin Legends: Myths of the Isma’ilis. London: I.B. Tauris, 1994.
- Hamarneh S. Pharmacy in medieval Islam and the history of drug addiction. Medical History, 1972.
- Nahas GG. Hashish in Islam 9th to 18th century. Bulletin of the New York Academy of Medicine, 1982.







